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OS MILLENIALS, SEUS FILHOS E AS FOTOS DE FAMÍLIA NO NATAL

Durante a minha adolescência a gente não chamava nada de cringe (obviamente porque esta é uma expressão super atual e muito utilizada pela Geração Z, os nascidos após 1995). Porém, a gente já costumava achar muita coisa cafona, brega ou ultrapassada. O casamento era uma delas, ao menos pra mim, e pra grande maioria das amigas que eu cultivava na época. Pra gente, o único destino possível seria uma carreira bem sucedida, em primeiro lugar, em segundo, um homem magnífico, em terceiro, muitas viagens, uma casa digna do nosso bom gosto, mesa farta, deliverys e bons drinks a granel. Depois, talvez, se valesse a pena, filhos.


Consigo ver hoje, que eu não era a única a pensar desse jeito, afinal, da grande maioria das amigas que eu cultivava naquela época, raríssimas casaram, e mais raras ainda as que tiveram filhos. Não há toa que fomos criadas pelas primeiras feministas oficiais, já que o movimento feminista e a favor da liberdade do amor de fato se tornou público e foi as ruas na década de 60. Naquele tempo as mulheres estavam cansadas de lavar roupas, limpar a casa, cuidar dos filhos, cozinhar e ainda agradar aos seus maridos, com sorrisos nos rostos, se virando do avesso para ter roupas bonitas, dentro das tendências da época, limpas e passadas, além disso, precisavam aprender as makes, adquirir os produtos e ainda cuidar dos cabelos para aparecerem impecáveis diante dos compromissos públicos.


Raríssimas mulheres (aquelas das quais a gente tem muito orgulho) tiveram a audácia, ou o destino, de ir contra esses padrões, e lutaram, especialmente no tempo dos Yuppies, na década de 80, por igualdade entre os sexos, especialmente nos locais de trabalho. Bom, claramente estas mulheres não eram bem vistas nem pelos homens, nem por suas matriarcas, sendo assim, a possibilidade de casar se tornava quase nula, e por fim, elas entenderam que estavam lutando pela liberdade de todas, e por isso, abdicaram da sua liberdade, também, para conquistar respeito e dignidade.


Bom, muitas das nossas mães, nesse tempo, estavam ou lutando também, ou em casa, assistindo, e torcendo, sonhando com a sua liberdade. Não a toa que elas cansaram de repetir pra gente quando crianças: Não vai engravidar cedo, minha filha, você tem uma vida inteira pela frente. E foi assim, que a gente, quando se tornou adolescente, definiu que, o novo cool era ser super bem sucedida, e casar era brega.


A gente foi se tornando jovens durante a era das separações, do amor livre, das baladas desenfreadas, da desproblematização da virgindade, do “ficar” antes de namorar, do “ficar por ficar” versus o “ficar sério”, do “coitada da fulana, engravidou”, do “ciclana não presta porque fica com os guris e não vai bem na escola”, alguém lembra dos estereótipos da nossa adolescência?


Ou seja, a gente saiu da escola determinadíssimas a passar por cima do que for, pra se tornar a beltrana número 1 nas nossas profissões. Algumas de nós conseguiram, outras continuam na batalha, e outras, como eu, desistiram dela.


O blazer banalizou, a peça que, na década de 80 significava a nossa conquista de igualdade dentro dos ambientes de trabalho, hoje, é utilizada pra comemorar o Natal com a família, alguém consegue perceber o que isso significa?


Eu só posso falar por mim, e hoje, com 31 anos, fazendo a Tia solteira de bem com a vida há quase 10 Natais seguidos, eu posso afirmar que, fui enganada. Primeiro, ser bem sucedida não é ser livre, sério, quando eu enxergo os millenials que chegaram lá, eu vejo jovens adultos, sozinhos, em seus super apartamentos decorados a lá Pinterest, pedindo delivery de Sushi toda a semana, bebendo as bebidas mais caras do mercado, enquanto escutam Podcasts pra se sentirem parte de uma boa conversa, passam horas dando likes e deslikes no Tinder a procura de uma boa companhia pra compartilhar tudo isso, egocêntricos, que transformaram amizades em laços descartáveis, que acham que “aguentar” sua própria família é um saco, e, nos colegas de trabalho e profissão, vem eternas competições de status social. Me perdoem quem não se encaixa exatamente nesta descrição, mas aos meus olhos, me parece isso, e somente isso.


Foi então que, eu percebi, neste ano, enquanto rolava os feeds do instagram (a midia das aparências) que, uma parcela dos jovens millenials que, há pouco tempo se deram conta de que estavam se tornando pessoas egocêntricas, mudaram de rumo, remaram contra a maré, encontraram alguém que julgaram valer a pena dividir a vida, rapidamente tiveram seus primeiros filhos e, passaram há, investir em fotos produzidas de suas famílias no Natal. Afinal, em pleno 2021, quase 2022, uma carreira bem sucedida já se tornou banal, e ser uma mãe de família, que aguenta no peito todos os desafios de gerenciar uma casa com marido e filhos, se tornou o novo troféu.


Honestamente, eu, aqui, da minha insignificância, estou as aplaudindo, pois na pequena provinha que eu tive da vida “independente” tão aclamada pelos Millenials, senti na pele uma solidão absurda, uma falta de sentido imensa, e me peguei bebendo e comendo sozinha, enquanto assistia filmes e séries “água com açúcar” em que as mulheres davam contam de tudo. Se casavam, trabalhavam, tinham seus filhos e visitavam seus pais aos domingos. A melancolia foi suficiente para mim. Eu entendi que estava no caminho errado.


À geração Z, que esta fazendo suas escolhas agora, eu encho a boca pra dizer, não tem problema engravidar aos 20, não tem problema conhecer o amor da sua vida aos 15, você não precisa estar formada na faculdade aos 30, e se você não se sentir a vontade de usar blazer, ter um escritório próprio em uma grande empresa, tá tudo certo. Não tem problema gostar de cozinhar, não é errado sonhar com seus próprios filhos, e, casar na igreja não é cringe. Quando te disserem que você não vai dar conta de tudo, acredite, é mentira. Você pode sim ser uma mãe de família, bem sucedida, que também frequenta os compromissos do seu marido e ainda visita os seus pais e os seus amigos de infância, sempre que sobra tempo. Quando te disserem que você pode ser o que quiser, isso não significa que você não pode ser uma mulher tradicional que se vira do avesso dando conta de tudo, e encontra nessa correria, a sua realização, viu? A gente é que é cringe, mesmo.


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